A desculpa da IA: quando a inovação vira justificativa para demissões em massa
Por trás do discurso de inovação em IA, muitas empresas podem estar apenas mascarando perdas financeiras e decisões estratégicas malsucedidas.
A crescente onda de desemprego que afeta o mercado de tecnologia pode ter causas mais profundas que não estão sendo explicadas de maneira clara pelas grandes empresas. Estamos vivendo em um mundo de inovações rápidas. Tudo acontece em um intervalo cada vez menor, o que naturalmente gera preocupação — especialmente para a classe trabalhadora, que sempre sente o impacto primeiro.
Em janeiro deste ano, a Amazon anunciou, em seu canal oficial, o Amazon News, que demitiria aproximadamente 16.000 funcionários. Os motivos dados pela gigante do varejo foram a “redução de níveis hierárquicos” e “o aumentado senso de responsabilidade”, justificativas que, para muitos analistas, parecem vagas e pouco transparentes. No entanto, em meio a essas explicações pouco claras, muitos dados parecem ser suavizados ou até escondidos para não gerar alarde entre os grandes investidores de tecnologia, o verdadeiro oxigênio dessa enorme bolha que está se formando. Será que essa bolha está prestes a explodir?
O avanço da IA e suas consequências no mercado de trabalho
Nas décadas de 1990 e 2000, ocorreu uma onda de demissões em grandes empresas do setor, como IBM, Hewlett-Packard e Microsoft. Naquele período, estávamos consolidando a adoção de computadores pessoais, dispositivos móveis e da nuvem. No entanto, ao observar esse contexto, percebe-se que essas transformações se desenvolveram ao longo de aproximadamente dez anos. Atualmente, as mudanças impulsionadas pelo avanço tecnológico ocorrem a cada ano, em uma velocidade avassaladora.
De acordo com Dario Amodei, CEO da Anthropic, em entrevista à BBC, o crescimento da inteligência artificial poderia eliminar, em até cinco anos, metade das vagas de entrada no mercado de trabalho nos Estados Unidos (fase em que os profissionais ainda estão adquirindo experiência). Segundo o executivo-chefe, isso ocorreria porque a IA já desempenha essas funções com alto nível de eficiência e continua evoluindo rapidamente. O executivo também afirmou que o mundo pode estar prestes a viver um grande ciclo de crescimento econômico. Entretanto, se esse processo não for planejado, pode acarretar uma onda de desemprego ainda maior.
Seria um crescimento econômico capaz de beneficiar apenas uma pequena parcela da população, gerando escassez de empregos, salários mais baixos e concentração de renda, cenário que já pode ser observado atualmente nos Estados Unidos.
O discurso corporativo de inovação e seu alto custo
Em meio a tantos anúncios de demissões em massa, uma palavra ganha destaque pela frequência com que é utilizada como explicação para os desligamentos: reestruturação. No Brasil, o caso mais recente que podemos citar é o da Stone, fintech do setor financeiro. Em março deste ano, a empresa anunciou a demissão de cerca de 370 trabalhadores. Em nota, afirmou que os desligamentos fazem parte de “um ajuste pontual em sua estrutura e ganho de eficiência com IA”, ressaltando que está modernizando seus processos. No entanto, a justificativa tecnológica para os cortes surge em um contexto marcado por resultados pressionados, prejuízos recorrentes e retração nos investimentos. Esse cenário, inclusive, não é novo. Em 2022, a Stone já registrava sinais de pressão financeira, como o prejuízo líquido de R$ 489,3 milhões no segundo trimestre, de acordo com o Money Times.
Em meio a essas explicações que acabam encobrindo dados financeiros, há big techs que dominam o mercado e investem pesado em infraestrutura de IA e ainda sem retorno suficiente, como é o caso da Microsoft. As demissões da Microsoft não respondem a uma crise de caixa, mas à necessidade de sustentar margens diante do alto custo de sua corrida por inteligência artificial, especialmente em produtos como o Copilot e na expansão de infraestrutura para modelos generativos. Esse cenário enfraquece o argumento de que IA é apenas crescimento, mostrando que o custo para manter serviços utilizados globalmente é financeiramente expressivo.
O efeito pandemia
Um fenômeno conhecido como “correção da bolha pós-COVID” pode ser um dos principais motivos para os layoffs cada vez mais recorrentes. Após o pico de contratações entre 2020 e 2022, mais de 264 mil profissionais foram desligados apenas em 2023, segundo a base Layoffs.fyi. Esse movimento pode ser explicado pelo grande volume de contratações realizado durante a pandemia. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), em relatório divulgado em junho de 2024, o número de postos de trabalho remotos mais que dobrou em dez anos, mas vem caindo drasticamente ano após ano.
Durante a pandemia, as empresas enxergaram na tecnologia uma grande oportunidade de crescimento. Contrataram milhares de pessoas e investiram pesado no setor, porém negligenciaram a sustentabilidade financeira desse avanço e o retorno esperado no médio prazo.
Esse excesso de confiança não se limitou à expansão das equipes, mas também se estendeu aos investimentos massivos em infraestrutura de IA. Bilhões de dólares foram direcionados à tecnologia, especialmente à infraestrutura de inteligência artificial. Em alguns casos, esse investimento sequer se traduz em retorno direto: segundo o Business Insider, usuários avançados de planos premium de inteligência artificial pagos a US$ 200 por mês chegaram a gerar até US$ 35 mil em custos de inferência para a empresa, tornando parte dessa operação estruturalmente não lucrativa.
Portanto, os layoffs cada vez mais recorrentes podem ser a consequência de uma aposta que não gerou o retorno esperado. Os argumentos de “reestruturação” e “inovação”, frequentemente apresentados pelas empresas após promoverem demissões, podem estar ligados, na realidade, a perdas financeiras. No caso das empresas de capital aberto, que dependem fortemente de demonstrar números positivos aos investidores — agentes que, em grande medida, sustentam essa estrutura instável — há uma tendência de evitar a admissão explícita de fragilidades monetárias. Em vez disso, a situação muitas vezes é mascarada sob o discurso de inovação em IA, definitivamente a sigla do momento. Porém, essa “torneira de dinheiro” não é infinita, e a conta de decisões tomadas sem a devida atenção pode ser cara, não apenas para a empresa, mas também para todos que dependem dela para se sustentar.
Qual será o futuro da tecnologia? Talvez a resposta esteja no que a IA ainda não entende
Após acontecimentos como esses, cada vez mais frequentes, o setor de tecnologia tem se tornado mais instável e buscado soluções que, muitas vezes, envolvem a migração para outras áreas. Se a velocidade do avanço da inteligência artificial continuar nesse ritmo e a onda de demissões seguir crescendo, afinal, qual será o futuro da área?
Alexey Grigorev, cientista de dados e engenheiro de software, relatou em seu blog pessoal um episódio que lhe custou algumas centenas de dólares. Ele utilizava um agente de IA com acesso total ao seu projeto e, em determinado momento, a ferramenta simplesmente deletou toda a infraestrutura que o sustentava. Isso envolvia um banco de dados com mais de 1.943.200 registros acumulados ao longo de dois anos. Segundo Alexey, o agente identificou uma funcionalidade duplicada no sistema, seguiu etapas que, tecnicamente, faziam sentido e optou por apagar tudo para corrigir o erro. A inteligência artificial executou o que parecia correto sob uma lógica puramente técnica, mas sem o contexto humano necessário para avaliar as consequências reais da ação. Esse relato deixa clara a necessidade da presença humana. A IA não possui o contexto implícito que muitas vezes não documentamos: a lógica do processo, a experiência acumulada, a intuição sobre riscos e a melhor forma de resolver um problema sem provocar um efeito em cadeia, como uma fileira de dominós. A inteligência artificial pode até administrar uma hamburgueria: preparar o hambúrguer, servi-lo e padronizar processos. Porém, apenas nós sabemos qual fornecedor costuma atrasar, qual válvula do botijão exige atenção extra ou qual cliente precisa de um atendimento mais sensível.
Muitas empresas estão voltando atrás após realizarem demissões em massa, pois perceberam que estão se tornando excessivamente dependentes da IA, enquanto sua lógica operacional e cultura organizacional ficam para trás. Quando um júnior é demitido, não é uma IA que assume seu lugar; na prática, a responsabilidade recai sobre um profissional sênior, que se torna cada vez mais sobrecarregado. Para reforçar esse argumento, vale citar uma pesquisa da Harvard University com dados de mais de 62 milhões de colaboradores. O relatório deixa explícito que o problema não está apenas na substituição da mão de obra do profissional desligado, mas principalmente no impacto sobre quem permanece e precisa absorver toda a sobrecarga.
Definir uma resposta simples e única sobre como devemos agir agora para lidar melhor com o futuro não é tarefa fácil — e talvez seja impossível. Vivemos em uma era de imprevisibilidade: nunca sabemos com precisão qual será o próximo grande abalo da bolha tecnológica. O que temos são análises baseadas em dados reais. E o que vemos são empresas perdendo sua cultura para a inteligência artificial, enfrentando vazamentos e erros de infraestrutura cada vez mais frequentes.
Alguns analistas apostam no surgimento de uma nova profissão: o “fixer” de erros da IA, responsável por revisar o que a máquina produz e realizar correções. Porém, surge uma questão ainda maior: e se grandes empresas de tecnologia, como OpenAI e Anthropic, que ainda enfrentam desafios de lucratividade, não conseguirem mais sustentar a estrutura massiva de datacenters exigida pelo uso global dessas ferramentas? São bilhões de dólares investidos em algo que ainda não gera o retorno esperado, embora prometa lucros gigantescos no futuro. A pergunta inevitável é: quão distante esse futuro realmente está?